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Projecto de Intervenção do Agrupamento de Escolas de Vila Cova - Barcelos

Gosto do poder das palavras... Posso escrever páginas e páginas para traduzir o que poderia dizer em duas linhas. Mas não me interessa minimamente a síntese. Os detalhes é que fazem a diferença... São como os pensamentos... Posso pensar em um objectivo último, o que levaria segundos para fazê-lo. Mas por que desperdiçar o caminho, as paisagens e os momentos? Apenas quando voo longas distâncias permito-me cerrar os olhos. Afinal as janelas dos aviões são absolutamente pequenas e quase nada há para ver, além do infinito azul. Sim, às vezes tem nuvens fantásticas, mas só em determinada altitude. A maioria das vezes voamos em uma altitude bem superior, muito acima das nuvens e de suas formas impossíveis. Isso quando o voo é diurno, pois quando é nocturno nada há através da janela minúscula além da escuridão...
Mas voltemos ao caminho. Disse o sábio que “quando caminhamos não há nenhum caminhante, só o caminhar”! O verbo! No princípio era o verbo! E é assim quando me ponho a caminho... Posso viajar todos os caminhos através da palavra sem sair do lugar. Sei que estás a pensar onde quero chegar... Mas ainda há pouco iniciei essa jornada, mal comecei a desfrutar a paisagem, nem pude espreitar os infinitos atalhos que surgem como cogumelos à minha volta...
Já escrevi vinte e cinco linhas e ainda não disse nada. E não direi nada que possa denunciar meu real interesse em escrever este texto.
Poderia dizer simplesmente que Estudo opus 10 nº3 é um estudo de Chopin o qual estou a ouvir neste momento! Mas dizer isso assim não é uma história e não tem interesse nenhum...
Escondido em minha memória, em um sótão empoeirado e abandonado que já não existe mais, há uma colecção de álbuns de uma série chamada Masters of Classical Music. Ou talvez não seja este o nome... Lembro-me das capas, de um amarelo ocre, escrito em letras grandes e brancas o nome da série, o compositor, e as peças nele contidas. E um pequeno retrato do artista, a preto e branco no canto superior esquerdo. Já não sei onde foram parar estes álbuns... Mas sei que foi aí, mal tinha eu nascido para esta vida, e durante toda minha infância, que formei minha cultura clássica, o gosto pelo piano, pela ópera, pela música de câmara, pelas grandes orquestras. Nunca me perguntei o que aquelas músicas significavam, mas sempre estive atento às sensações que provocavam em mim. Descobrir um significado último seria enterrar o poder da música, encaixotá-la, colocar a música em uma mísera gaveta com etiquetas inteligentes e precisas. Não! Uma música jamais pode ser algo para mim eternamente. Se hoje uma canção me faz lembrar alguém, amanhã poderá fazer-me rir de minhas desgraças, ou ainda lembrar de um prato delicioso que comi naquele restaurante chiquetérrimo que fui quando estive em Itália pela primeira vez, quando meu amigo fez uma cena de ciúmes dizendo que sua esposa só tinha olhos para mim, que ficávamos bem sem ele e abandonou-me ali, sem falar italiano, com uma pessoa que supostamente era sua esposa, e que eu tinha conhecido dois dias antes! Pois neste momento o pianista tocava Chopin lindamente, e o sabor daquela pasta era sublime. É claro que isto é uma outra história, e que hoje falo italiano o suficiente para me desenrascar em uma situação destas, mas no momento fiquei mudo como um anão de jardim... Há quem singularmente abomine os anões de jardim... Pois eu, se tivesse um jardim, teria sim anões e cogumelos, mas também criaturas bizarras o quanto baste. Mais um atalho nesta jornada e vem em minha memória a fazenda de uma artista que viveu no interior do Brasil. Não sei se ela ainda é viva ou se já morreu... Maria Amélia Botelho de Sousa Aranha é seu nome. (sempre achei lindo esses nomes compridos, como se fosse nome de rainha...). Ela viveu por uns tempos em uma daquelas antigas fazendas coloniais e minha mãe, naquela época, leccionava na pequena escola rural da propriedade, onde estudava a miudagem, filhos dos empregados da fazenda. Lembro-me da casa grande, ricamente decorada em seus mínimos detalhes... Lembro-me de um caminho que conduzia-nos à piscina, caminho esse ladeado por árvores milimetricamente dispostas ao longo da estrada estreita. Eram plátanos, eu acho... E depois a piscina, naquela manhã com uma camada leve de folhas acastanhadas na superfície... Em torno da piscina, esculturas em tamanho natural de quase todos os Deuses do Olimpo! Sim, deuses gregos contemplavam a ausência de corpos impossíveis que poderiam banhar-se naquelas águas ténues... Isso tudo perdido no meio do nada... Não sei se existe ainda aquele lugar, perdido no tempo. Aquela casa imensa desabitada. E os deuses gregos. Quando vejo anões de jardim remeto-me sempre àquele espaço etéreo como se não existisse além de meus pensamentos. Mas garanto-vos de que é real, ou era...
Mas voltemos ao tema principal que já é hora de acariciarmos os reais propósitos destas linhas...
Naquela noite (que já lá vão dias desde o ocorrido) corri ao dicionário, Novo Dicionário LELLO da Língua Portuguesa, segunda edição, Fevereiro de 1999, e vasculho-o até encontrar o termo que me vai na alma... E lá está, na página 1868, o termo que, pensava eu, poderia traduzir meus mais profundos sentimentos. Ledo engano! As palavras conduzem-nos a outros tantos termos mas nenhum deles traduz aquilo que dilacera meu peito e meus sentidos. Preciso respirar e não consigo. Dirijo-me à varanda para fumar um cigarro! Outro grande engano! Se não consigo respirar vou agora entupir meus pulmões com uma fumaça que não me leva a nada? Atiro longe o cigarro e, por agora, estou livre desse mal!
Mas a vontade de asfixiar-me não tardará, eu sei, e vou sucumbir de todas as maneiras só para que passe aquela sensação primeira que quase toma meu corpo, meus pensamentos, meus sentidos, minhas mais remotas lembranças...
Ok! Prometo que deixarei uma versão resumida deste texto no final! Mas se chegaste até aqui, caro leitor, porque não continuas? A não ser que hoje passe na televisão o último capítulo daquela telenovela de moral duvidosa que você não sobrevive sem ver. Neste caso, que é de vida ou de morte, tudo bem! Apresse-se até o final do texto e leia as duas últimas linhas, devidamente assinaladas como “Resumo sintético da obra acima”...

Continuas comigo? Entre de volta a bordo e sigamos esta pequena e inverosímil viagem! Quem poderá atestar sua verosimilhança que atire o primeiro pergaminho, ou a primeira estrofe de um poema esquecido!...

Voltemos ao referido dicionário e a primeira referência que surge é “s.f.”, que quer designar o género do termo procurado. Substantivo feminino. Grande ironia... Quero eu lá saber o género da palavra? Essa coisa de género desespera-me muitas vezes. E também algumas palavras... Exemplos? Como pode “tudo junto” escrever-se separado e “separado” escrever-se tudo junto? Teria outros tantos exemplos mas não vou por aí...
Depois temos “qualidade ou estado do que é...” Desculpe mas como algo pode ser uma qualidade ou um estado? E finalmente arrola-se uma porção de novos termos que obriga-nos a novas consultas de outros termos, mas até aqui ninguém nem sequer suspeita o que me vai na alma!

Não é apenas por estar com um membro “enfaixado” que passarei repentinamente a sentir-me como uma autêntica múmia dos tempos dos faraós! Mas o acidente que a providência divina reservou-me (e nesta altura dos acontecimentos só posso pensar assim!) desencadeou uma série de sensações/sentimentos contraditórios e complementares ao mesmo tempo... E sei que não estarei assim eternamente... Fico então a tentar superar-me de todas as maneiras e estabeleço um tipo de contrato com o Senhor do Tempo, para que as horas passem, bem como os dias e as semanas, para que logo ultrapasse este calvário. E há dias e dias...

Pois foi em um destes ditos dias que ela chegou, sorrateira, leve e insinuante como uma serpente emplumada. Agarrou-se aos meus pés, subiu lentamente pelas minhas pernas e foi me envolvendo plena e definitivamente, feito planta parasita que envolve e asfixia lentamente aquele que a sustenta. Quando dou por ela tento de todas as maneiras livrar-me dos males e de seus infinitos abraços que me envolvem. Tento dançar pela casa três vezes vazia, a carregar junto ao peito um membro inerte, mas uma dor fisga-me por dentro e vejo sinais de que não é por aí... Canto em voz alta pelos cómodos da casa desolada (já sou apenas um espectro que flutua pelos corredores imensos...), mas já é demasiado tarde e compreendo finalmente que devo aceitar o que me consome e me atormenta. Resta apenas sobreviver à tormenta sem medos, sem culpas, sem nada de nada. O que sinto, como me sinto, o que penso, o que penso que penso... Sem alternativas procuro pelas gavetas, debaixo dos móveis, dentro de pequeninas caixas amontoadas onde outrora situava-se o sótão (isso era antes, mas acostumei-me a chamar de sótão o lugar onde hoje repousam as velharias de meu antigo sótão!), e eis que tenho como último álibi um riquíssimo Dicionário, que pretende conter todas as palavras, todos os nomes, tudo o que se denomina...
Mas o que vem ali descrito em nada coincide com meu mais íntimo sentimento. Já não há ninguém nem algo que me julgue a existência!


Resumo sintético da obra acima:

Sinto imensa TRISTEZA! Ouço Estudo opus 10, nº3 de Chopin, também conhecido por “Tristesse”!

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Paulo M. Faria Comentário de Paulo M. Faria em 1 julho 2008 às 13:41
Muito obrigado, Evaldo, pela tuas deambulações ao sabor de Chopin. Gostei muito de acompanhar a tua viagem de caminhante errante... em busca de nada e de tudo. As palavras caminham e fazem-se luz e caminho quando as soltamos, quando as buscamos dentro de nós e quando as perseguimos incessantemente no dicionário. Acredito com todo o meu coração que é pela palavra que partimos, que chegamos, que passamos para a terceira margem, como fala o mestre do Grande Sertão Veredas...
São quase três da tarde. O Guilherme pergunta-me se não estou cansado e eu acenei que sim. Alguém me roubou o sol....
Cristina Comentário de Cristina em 30 junho 2008 às 21:34
Agora sem "membro "enfaixado"" espero que a "Tristesse", seja apenas música para os teus ouvidos :o)

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