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Projecto de Intervenção do Agrupamento de Escolas de Vila Cova - Barcelos

Não tenho filhos, mas creio que uma das coisas mais dolorosas que podem acontecer a um ser vivente é assistir à morte de um filho. Ainda mais se for filho único…
Foi o que aconteceu à D. Miosótis, uma senhora que mora algumas casas acima, na minha pequena rua. Digo pequena porque minha rua começa na esquina de baixo e termina logo ali, na esquina de cima. Mas com muita história para contar…
Pois D. Miosótis tivera uma única filha, que entretanto se casou, foi feliz, deu-lhe netos. Um dia estava a falar com a mãe ao telefone e, a meio de um assunto qualquer, sentiu uma dor fulminante e teve um ataque fatal. D. Miosótis, que acabara de se tornar viúva, nunca mais foi a mesma. Todos os sábados, religiosamente, deposita sobre o túmulo da filha um ramo de flores…
“Faz hoje certinho 2 anos e 4 meses que minha filha se foi…”
Dividida entre cuidar dos netos, já jovens, e a encontrar as flores certas para a rotina que se instalou desde então, emociona-se com facilidade…Encontrou em mim mais um ombro amigo para consolar-se nos dias de maior aflição…
“Amanhã completam 3 anos e 2 meses que minha Violeta se foi…Devo levar-lhe flores amanhã…E as flores andam tão caras…”
Foi nessa altura que perguntei quanto ela gastava ao mês com flores e o montante deixou-me abismado! Claro que cada um faz o que bem entende com seu próprio capital, mas tratando-se de uma senhora sem grandes posses…
“A senhora não acha que pode reduzir um pouco as despesas com as flores?” – disse-lhe eu.
“Mas deixar minha filha sem flores?” – respondeu rápida, sem querer respostas.
E foi aí que, sem querer ofender, lancei a pergunta impensável:
“A senhora já ofereceu flores a alguém…vivo?”
Nunca imaginei que uma simples pergunta poderia desencadear tanta incredulidade, tanta revolta, tanto assombro…
“Nunca! Os vivos não precisam de flores!!!”
E retirou-se pondo fim à questão…

Fico a pensar nessas pessoas que nunca ofereceram flores…Não por serem insensíveis, não por serem alérgicas, não por acharem que é dinheiro mal gasto, não por acreditarem que as flores são para estarem nos jardins, vivas, por nada disso…Penso naquelas que não têm amizade, simplicidade e até generosidade para oferecer flores a alguém…vivo.

Dizem que os homens não gostam nem se importam com flores. Mas não é verdade…Eu adoro flores. Sempre gostei! E creio que nunca levei flores a um cemitério em toda minha vida…E sempre que posso, ofereço flores!

Lembro-me dos tempos da Universidade…Vivia em uma república de estudantes e estava no auge de meus 19 anos. Morava mesmo ao lado de uma floricultura. Às vezes, ia ao lixo à procura de flores que já não se vendiam, mas que ainda estavam belas. E oferecia-las ou levava-as para casa. Cheguei a oferecer, nos anos de amigas mais íntimas, uma chuva de pétalas de rosas…A proprietária da floricultura, D. Rosa, ao presenciar tão nobre gesto do jovem universitário, tornou-se minha amiga. Quando ia deitar ao lixo as rosas já abertas e as flores velhas, e que não seriam mais vendidas, oferecia-mas. Já era conhecida minha fama em torno das flores…
Certa vez recebi um botão de rosa branco em casa, arranjado em um belo raminho. Anexo vinha um cartão, anónimo, a desejar boa semana. “Que simpático!” – pensei eu. Na outra semana, foi um botão de rosa amarelo, bem claro. O cartão dizia que eu era uma pessoa maravilhosa, desejava novamente uma boa semana. Semana após semana, fui recebendo rosas de todos os matizes possíveis, num crescendo, sempre anónimas, com cartões a condizer em ousadia, até chegar ao vermelho paixão! Sempre perguntei à D. Rosa, durante todos esses meses, quem estava a enviar aquelas flores, quem era a pessoa anónima que estava a assediar-me de tal forma. Ela guardava aquela informação como o maior segredo profissional de todos os tempos… Chegaram meus anos e fui chamado logo pela manhã à floricultura. Vinte rosas vermelhas, em igual número dos anos que completara, em um ramo imenso e surpreendente! E um cartão de felicitações, anónimo, dando a tacada final:
“Marque hora e local para encontrarmo-nos e para que eu revele o meu mais profundo amor. Venha sem pressa… Sempre e eternamente tua…”
Fui seguidas vezes à D. Rosa e cheguei a implorar para que me dissesse quem era minha admiradora secreta. Diante de minha súplica, enfim, ela revelou-me que era uma senhora com o dobro de minha idade, funcionária da Universidade onde eu andava, e que morava perto de casa. Era muito querida e simpática, mas para a jovialidade dos meus recém 20 anos, era demasiado velha para mim…Enviei-lhe… flores! E declinei o convite alegando estar a viver uma paixão em outra cidade, e a exaltar sua nobre conduta! Foram anos nos quais sempre tive flores em casa…Passados 20 anos, lembro-me desse período com uma leve nostalgia…
É escusado levar flores à minha campa depois da minha passagem desta vida…Se quiserem oferecer-me flores, façam-no agora, enquanto estou vivo!!!

Evaldo Barros*

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